"quantative easing", doping ou reforma?


qual o real alcance das declarações de Mario Draghi em Jackson Hole? vamos reduzir-nos à discussão da dicotomia “austeritários vs antiausteritários”? ou estamos a falar de reformas que permitem relançar o crescimento dando músculo à economia? ou será doping temporario esta injecção de liquidez?

Inês Domingos explicou assim o sentido essencial dessas medidas de intervenção no mercado monetário (através da descida da taxa de juro e de medidas “quantitativas”):
Após várias intervenções do BCE, incluindo quantitativas, permanece a dúvida sobre porque é que a Europa não consegue recuperar tão rapidamente como os Estados Unidos e o Japão. Parte da razão poderá ser a implementação de políticas de controle orçamental em vários países. Outros factores importantes estão provavelmente relacionados com o facto de as economias europeias não terem flexibilidade suficiente para recuperar rapidamente de uma crise prolongada. A política monetária, no entanto, não pode resolver esse problema, pelo que os estados membros terão de se empenhar mais nas reformas estruturais.

o colunista do Financial Times Wolfgang Münchau considerou as medidas anunciadas por Draghi muito curtas: “the big question is whether and over which period this policy can work, and whether the eurozone’s political leaders can deliver an accompanying fiscal expansion through a tax cut or an investment stimulus. For this to work, both fiscal and monetary policies need to expand. The ECB and Mr Draghi deserve credit for making a start. But we should also be aware that are still a long way from the halfway mark.”

a posição dos editorialistas do Wall Street Journal é diferente. as medidas, mesmo podendo justificar-se, acabam por dar pouco mais do que uma nova folga aos políticos europeus que resistem a fazer as reformas e também não é especialmente entusiasta no que diz respeito às medidas quantitativas conhecidas por “quantative easing” (QE): “The problem comes from believing that QE is some magic growth elixir. The world's Keynesians have convinced themselves that the U.S. is now growing faster than Europe simply because the Federal Reserve implemented QE while Europe hasn't. That overestimates QE's impact on U.S. growth, which has hardly been gangbusters at a mere 2% average annual rate. But it also underestimates the degree to which European economies are burdened by aging populations, high taxes, regulations on business, and constricted labor markets.

o britânico Telegraph em posição eurocéitas, através de Allister Heath defende que a “tentativa tímida” de Mario Draghi de salvar o euro está condenada ao fracasso. Como, na sua opinião, “the entire euro construct is deeply defective, an edifice that is doomed, in time, to fail with disastrous consequences”, está pessimista, pois “excessively cheap money and ultra-low rates are a sign of sickness, not strength”.

no El Pais, Ernesto Ekaizer prefere chamar a atenção para a forma como os diferentes bancos centrais foram utilizando o “quantative easing” para, na prática, conseguirem uma desvalorização competitiva das respectivas moedas, sem no entanto assumirem uma tal política: “La Reserva Federal ha conseguido la devaluación de facto del dólar con su política de relajación cuantitativa de los últimos tres años. El Banco de Inglaterra ha ido por la misma senda; y el Banco de Japón, tres cuartos de lo mismo. Una guerra de monedas encubierta por la quantitative easing o inundación monetaria. ¿Quién dijo que se habian terminado las devaluaciones competitivas? Aquí estamos en la era de la devaluación por otros medios.”

Richard Barley faz uma análise semelhante no Wall . um euro mais fraco iria ao encontro dos desejos de muitos líderes europeus, que querem tornar mais baratas as exportações dos seus países, e também ajudaria a inflação a subir, combatendo o risco deflação.

seja como for há sempre uma conclusão de que não podemos fugir: a política de dinheiro fácil e barato não pode eternizar-se permitindo aos líderes europeus a fuga às reformas difíceis. aprendemos alguma coisa até aqui?

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